quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

3 a.m.

Queres provar para todo mundo que é normal, quando na verdade, sua maior vontade é assoviar no ônibus. Então permanece em silêncio. Preocupa-se que este sinal de felicidade não seja nada além de um sinal de loucura. Está com os fones de ouvido e a música no último volume, mas ainda assim, se pergunta se não é estranho o quanto balança a cabeça, em um ritmo que só você consegue ouvir, enquanto está em pé, no meio de um ônibus lotado.

Lembra que por crescer no interior, tinha privilégios como esquecer a janela aberta e, uma vez na cidade grande, teme por sua segurança. Fecha a janela, tranca a porta e esquece a sensação da brisa noturna no rosto, ou no seio nu. Quer cantar com toda a potência dos pulmões, mas teme que os vizinhos te ouçam e se sintam incomodados.

Vê a pilha de livros que gostaria de ler aumentar, enquanto tenta manter o foco naqueles que precisa ler; deixa os filmes e o verão para mais tarde; não vai à praia e não vê o campo, não come a comida que quer e não faz exercícios; quer alguma coisa e não vai atrás.

Quer dormir, mas sente insônia.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

In memoriam

Quando ele acordou, era uma quinta feira como qualquer outra. De fato, era um dia como qualquer outro. O relógio marcava nove horas, mas para o resto do sul do Brasil, eram 10h. Para não se perder no horário dos remédios, preferiu não adiantar o relógio quando o horário de verão começou, quase três meses antes daquela fatídica quinta.

Então, dando continuidade a sua rotina, esticou o braço, ainda meio dolorido do tombo que havia levado dois dias antes, alcançou o sino que ficava ao lado da cama e tocou-o. Não demorou mais de dois minutos até que Vera, a doméstica/babá da casa, aparecesse para ajudá-lo a levantar. Com 94 anos, seu corpo velho e cansado já não respondia ao cérebro como ele gostaria, e ele havia aprendido a lidar com o fato de que precisava de ajuda física.

Levantou, vestiu-se, dispensou a ajuda de Vera e apoiou-se no andador que tinha em casa. Caminhou até a sala e encontrou a mesa do café da manhã já posta:  café com leite e duas colheres de açúcar, pão de milho e margarina. Comeu, andou até a poltrona que ficava ao lado da janela e ligou a televisão no mudo — não ouvia já há algum tempo, e então havia desistido de tentar escutar a TV.

Passou o dia perdido no silêncio que o aparelho de audição desligado o proporcionou. Observou bem o céu enuviado e buscou na memória as tardes de infância em que brincava e corria livremente. Viu algumas folhas caírem da árvore que ficava em frente a sua janela e reparou bem no sorriso das crianças que brincavam no pátio do condomínio.

Depois do almoço, escovou os dentes e dirigiu-se novamente ao quarto. O sono da tarde já era de praxe. Quando acordou, uma hora e meia depois, lembrou da dor no braço ao se esticar para tocar o sino. Dessa vez, chamou por Tereza — a mulher com quem vivia nos últimos 15 anos e com quem tinha um compromisso feito puramente por carinho e amor. Ela chegou, sentou-se ao seu lado e os dois começaram a conversar.

O tombo que levara dois dias antes também tinha machucado Tereza. E era o machucado de seu rosto que ele agora acariciava. Pediu desculpas, agradeceu todos os anos de parceria e secou uma lágrima de emoção que correu no rosto da amada. Pela última vez.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Oração para a felicidade




Que nenhum medo me segure, ou me impeça de tentar; que nenhuma rotina enlouquecida me afaste dos amigos ou da família; que nenhuma dificuldade financeira faça com que eu espere pouco da vida.

Que nenhuma saudade se transforme em um machucado incurável, e que nenhuma cicatriz se abra novamente em ferida. Que o frio do inverno seja aquecido com taças de vinho e boas companhias, e que o calor do verão nunca perca a beleza dos sorrisos meio suados.

Que nenhum obstáculo se transforme na muralha da China, mas que nenhuma barreira seja subestimada. Que cada vitória seja devidamente comemorada, mas que o sucesso nunca tome conta da personalidade. E que nenhuma mudança seja vista como o fim, mas como mais um começo.

E, por fim, que nenhuma lágrima deixe de correr, nenhum riso deixe de ser compartilhado, nenhum abraço deixe de ser pedido, nem dado, e nenhum beijo deixe de ser roubado por vergonha. Que 2013 seja, sobretudo, sincero.

Que assim seja!

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Afterlife

Leia ouvindo


Como todos os dias de manhã, levantou. Tomou banho, comeu alguma coisa e pegou o ônibus para o trabalho.
Nunca pegou o mais rápido, porque ele vai por atalhos. O mais longo é mais bonito, tem a vantagem de se ver o mar durante todo o trajeto e, em geral, é nessa hora que ela pensa que vale a pena levantar.


... Até que um dia deu por si já em frente ao trabalho. Abriu a porta, sorriu para o porteiro e chamou o elevador... Quando foi que deixou de usar as escadas?

Ao fim do dia, recebeu a ligação do namorado, trocou duas palavras e desligou dizendo 'eu te amo'. Só ao guardar o telefone na bolsa é que percebeu o quão automática foi a sua resposta.

No meio do caminho para o ponto de ônibus, parou. Olhou para dentro da academia e viu uma jovem suando, correndo. Há quanto tempo ela não corria? Não lutava, ou nadava? Há quantos dias passava pelo mar desapercebida, para quantas pessoas deixou de dizer olá?

No ponto da beira-mar, deixou sua condução passar. Atravessou a rua e pegou um táxi para a direção oposta. Tirou o salto para pisar na areia e, mesmo de terninho, foi molhar os pés nas águas geladas do sul da ilha.

Ligou para o namorado e ouviu as mesmas três palavras de antes. Terminou.

Mergulhou de roupa e, ao sair da praia, parou em um bar para comprar uma cerveja.
Sentiu-se viva.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Petição

"Eu, Úrsula, sou aluna da Universidade do Estado de Santa Catarina no curso de Pedagogia. Estou na sétima fase, falta um semestre para eu me formar. Recentemente comecei uma relação amorosa com um professor da Universidade, estávamos em uma relação de namoro. Ele tinha me apresentado à mãe, ao pai, saíamos juntos, dormíamos juntos. Na noite de quinta-feira (15/11), entre 18h e 22h da noite, no apartamento dele, fui agredida. Levei um soco no olho esquerdo sem motivo. Fiquei com muito medo e receio de denunciar, pela situação de poder instalada na relação. Ele está no cargo de chefia do Departamento de Ciências Humanas da FAED, faz parte do Comitê de Ética, enfim, não tinha como não ficar com medo. No sábado de manhã, fiz o boletim de ocorrência, depois de assumir que precisava fazer algo com a violência que tinha sofrido. 
Porque se eu, formada em Jornalismo e estudante de Pedagogia, não fizesse algo sobre isso, sentiria a impotência comigo mesma. Fui registrar o BO de agressão na 6ª DP da Agronômica. Quando cheguei na Delegacia da mulher, criança e adolescente, fui recebida por um agente, que em resposta a pergunta de uma amiga se podia me acompanhar, falou que eu deveria aprender a me defender sozinha. "Ela precisa aprender a se defender sozinha". A frase dele foi chocante em um primeiro momento, mas não me senti acuada, muito pelo contrário. Comprovei que mulheres fragilizadas são muito maltratadas pelo sistema e por isso, sentem-se intimidadas e relutam em seguir com a denúncia. 
Como o crime aconteceu no município de Palhoça, para adiantar o caso, fiz o registro do BO na Delegacia de lá, que inclusive ficava ao lado da casa do agressor. Precisei contrargumentar com um policial que recém tinha sido transferido para o setor e não apresentava conhecimento da Lei Maria da Penha. Tudo isso me deixou mais desconfortável. A questão é que o fato da agressão não diz respeito só a mim, mas a todas as mulheres que são constrangidas cotidianamente. Não recebem o tratamento adequado por parte do serviço público, são submetidas a demora dos processos e nunca se tornam demanda de nada, inclusive na semana de ativismo contra a violência a mulher. 
Se essa experiência puder ser ampliada para que possamos levar algo dela conosco, sinto que não a vivi a troco de nada. Então, o roxo em meu rosto será reinventado e muitas ações em pessoas boas terá despertado. A violência só tem cara a partir do momento em que escancaramos sem anseios de seguir em frente. Ser mulher em uma sociedade patriarcal e machista, que trata a diversidade como doença mental não é uma tarefa fácil. Mas as mudanças só acontecem quando estamos dispostas. A minha disposição é grande e constante.Perene. Nesse momento, preciso de apoio. É o pedido mais franco e desarmado que faço a todas e a todos. Outras pessoas calaram diante de casos parecidos. Falar (e escrever) é o que sei fazer. Faço disso frente de uma luta. 


Atenciosamente, 

Úrsula."

Eu não a conheço muito bem, infelizmente. Mas  a proximidade, querendo ou não, aumenta a raiva que a gente sente quando isso acontece. 
Agressão não é normal, nem aceitável. Não importa com quem, não importa onde.
Leia. Assine.

domingo, 18 de novembro de 2012

5 razões para continuar a nadar


  1. Falta de outras alternativas. O que mais você sabe fazer além de nadar?
  2. Pequenas coisas que ainda quer conquistar: uma bolsa nova, um sofá novo, um emprego novo.
  3. Possibilidade de conhecer outros peixes... porque é difícil não enjoar dos antigos.
  4. Limpeza. Sentimental, física ou virtual, limpezas podem realmente fazer a diferença.
  5. Se você nadar por tempo o suficiente, logo as suas dúvidas/agonias vão ter que ficar pra trás.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Por diversão

- Ele viu você. Viu você rodopiar, feito bailarina, bem na pontinha dos pés. E ele disse, também, que te via sorrir. Um riso tão alto e tão aberto que...
- que?
- ... que não podia ser real.
- hum....
- Ele disse que você não está feliz... que não gosta do que está fazendo e que precisa se renovar.
- Uhum, e o que ele sugeriu?
- Que você se divertisse. Que visse uma criança brincar e lembrasse o que é diversão.



Um recado que vale para quase todos os adultos...

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