Eu estava no ônibus, em hora de fim de expediente, lotado. No caminho para casa, 20 minutos se passariam. Vinte minutos sobre os quais eu não teria o menor controle. Entre uma tentativa e outra de não esbarrar em alguém e de manter o equilíbrio, ouvi o relato:
...
- É, eu tive que sair de casa. - disse o garoto, meio encabulado - Estou ficando, por hora, na casa de uma amiga.
Enquanto falava, olhava e acariciava os braços, ainda meio roxos.
- Ela (?) não te contou a história toda? Pois é, então... Eu saí mais cedo do trabalho, um dia, e o encontrei com outro na nossa casa. Na nossa casa - repetia, desolado. Fiquei puto, né? Mandei o cara embora e a gente discutiu feio. Ele não chegou a me bater, mas me segurava com tanta força... não sabia que ele era capaz de me tratar daquele jeito.
- Aí você saiu de casa?
- Não. Insisti mais um pouco, mais um tempo. Mas passei a sentir ciúmes e a gente começou a brigar com mais frequência. Aí sim ele me bateu. Um soco no olho, uns empurrões - e ergueu os óculos escuros, como que para mostrar alguma coisa.
- E agora? Vais ficar na casa da tua amiga até quando?
- Até quando precisar, até quando achar um apê para mim.
E a conversa seguiu, sobre imobiliárias e preços de aluguéis, até o meu ponto final.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Rua de duas direções
Pra ler ouvindo Kimbra
"Se eu for me apaixonar de novo, será só se tiver que acontecer. Se não, não vai" - mal sabia eu das palavras que proferia. Elas soaram como um sino no vazio e causaram mais estrago do que eu jamais poderia prever: de lá para cá, anos se passaram sem que eu me apaixonasse de novo, incapaz de ver algo digno de orgulho em alguém - mesmo em mim.
Eu nunca me arrependi de nada que fiz, porque já amei de verdade e intensamente. Já tive minhas histórias de flores com nomes românticos, de filmes em um sábado a noite e viagens em tardes de sol. Já tive histórias de sexo com amor, de seis transas em um dia, de elogios logo pela manhã. Nunca me arrependi porque foram reais, as histórias e os personagens - assim como foram seus finais.
Mas quando o amor se torna uma estrada de duas direções, a esquina é o lugar mais seguro de se ficar. Em cima do muro, indecisa. Porque não existe amor sem admiração e, se há dúvida, não há real razão para se dedicar.
"Você é tão indiferente!", eu ouvi de um dos meus amigos mais próximos. "Ou, se ainda sente alguma coisa, disfarça muito bem...", completou. E naquele momento, tudo o que eu queria fazer era sentir.
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
A fortuna e o passo
- Se me dissessem que ali em baixo estava a maior das fortunas, a minha espera, para ser minha, se eu para ela corresse, não apressava meu passo. Não saía desse meu passinho lento, seguro, prudente - que é o único que se deve ter na vida.
- Perfeito! Não vale a pena fazer um único esforço. Correr com ânsia para coisa alguma...
- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder.
... Estou cansado, Carlinhos. Não se vê uma tipoia livre.
- Lá vai o americano. Se corrermos, ainda o apanhamos.
-...Ainda o apanhamos.
E correram, apressados, em direção à contradição. Porque afinal de contas, o que é a vida, se não isso?
- Perfeito! Não vale a pena fazer um único esforço. Correr com ânsia para coisa alguma...
- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder.
... Estou cansado, Carlinhos. Não se vê uma tipoia livre.
- Lá vai o americano. Se corrermos, ainda o apanhamos.
-...Ainda o apanhamos.
E correram, apressados, em direção à contradição. Porque afinal de contas, o que é a vida, se não isso?
*Trecho retirado do episódio final da série Os Maias, disponível aqui
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Função: Orientadora externa
Pulei o horário do almoço e fui direto ao terminal. Peguei o ônibus com destino à Ressacada, o estádio do Avaí, onde seria o show do Paul McCartney, sentei-me no primeiro banco vago e comecei a preparação psicológica: eu não veria o show de perto. Se tudo desse certo, ouviria do lado de fora do estádio, onde eu estaria trabalhando, organizando as filas.
O treinamento pode ser resumido à algumas frases: "essas camisetas são suas", "haverá alguém passando com água para vocês a cada meia hora ou uma hora", "não esqueçam a capa de chuva", "sorriam", "lembrem-se de dar atenção a portadores de necessidades especiais", "vocês receberão R$10,00 e 50 minutos para o lanche às 20h".
Nas doze horas que passei em pé, sorrindo, perguntando e repetindo "o portão 11 é por aqui, por favor", consegui chegar a algumas conclusões interessantes:
O treinamento pode ser resumido à algumas frases: "essas camisetas são suas", "haverá alguém passando com água para vocês a cada meia hora ou uma hora", "não esqueçam a capa de chuva", "sorriam", "lembrem-se de dar atenção a portadores de necessidades especiais", "vocês receberão R$10,00 e 50 minutos para o lanche às 20h".
Nas doze horas que passei em pé, sorrindo, perguntando e repetindo "o portão 11 é por aqui, por favor", consegui chegar a algumas conclusões interessantes:
- O clichê da noite: a fila do show de um Beatle é, provavelmente, o lugar mais eclético e democrático que eu já vi. De hippies a metaleiros, todos sabem entonar ao menos uma canção em coro - e nessa hora, as diferenças deixam de importar;
- também é lugar para encontrar todo mundo que você já conheceu na vida: do amigo da faculdade e ex-chefes, até o seu professor de capoeira, de quando você tinha 8 anos. E ele vai te reconhecer;
- rostos parcialmente queimados são mais comuns do que eu imaginava;
- ser "orientador externo" é receber cantadas do tipo "tô precisando de uma orientação... de como chegar no motel... contigo".
- é aproveitar a única hora que você tem para sentar e comer para, em vez disso, ficar em pé, no meio da multidão, ouvindo e vendo o show enquanto ninguém chama a tua atenção;
- é ouvir do seu superior dizendo que você não está sorrindo o suficiente quando suas bochechas já estão doendo;
- é dar informações decoradas e repetidas, sem realmente saber pra que lado fica cada coisa, nem como funcionará o trânsito na hora da saída;
- é fazer amizade com os cambistas e aprender que uma capa de chuva pode ser motivo de briga;
- é esquecer todos os perrengues quando toca Live and let die e se emocionar com os fogos, mesmo do lado de fora do show;
- é ir embora a pé, na chuva e pensando "não valeu os R$100,00 que ganhei, mas já vai pagar 1/3 do meu cartão de crédito. E eu ouvi Paper back writer de perto, de graça".
domingo, 8 de julho de 2012
Ode à releitura
Quem diz que voltar para um amor antigo é como ler um livro pela segunda vez, ou nunca realmente voltou a um amor antigo, ou nunca leu um bom livro.
Eu parto da opinião de que amores antigos não existem. Eles morrem no momento em que os dois personagens principais dizem 'chega' e fazem algo que os transforma para sempre: tomam a decisão de terminar. Quando se tenta reviver um amor antigo, o único caminho é a decepção. Você mudou, ele(a) mudou. E se mudam os protagonistas, o romance não pode ser o mesmo.
... Já um livro nunca muda. Você volta a ele, como que para retornar a uma época da sua vida e funciona. Ele permanece igual, com o mesmo conteúdo e com as mesmas magias que um dia te conquistaram. E se você mudou, não tem problema: interpreta de uma nova maneira, aprende a ver o outro lado da moeda. Mas sabendo que a base continua a mesma, não há riscos a correr. Nem decepções no fim do túnel.
Eu parto da opinião de que amores antigos não existem. Eles morrem no momento em que os dois personagens principais dizem 'chega' e fazem algo que os transforma para sempre: tomam a decisão de terminar. Quando se tenta reviver um amor antigo, o único caminho é a decepção. Você mudou, ele(a) mudou. E se mudam os protagonistas, o romance não pode ser o mesmo.
... Já um livro nunca muda. Você volta a ele, como que para retornar a uma época da sua vida e funciona. Ele permanece igual, com o mesmo conteúdo e com as mesmas magias que um dia te conquistaram. E se você mudou, não tem problema: interpreta de uma nova maneira, aprende a ver o outro lado da moeda. Mas sabendo que a base continua a mesma, não há riscos a correr. Nem decepções no fim do túnel.
domingo, 24 de junho de 2012
A insustentável leveza do ser
"Não existe meio de verificar qual é decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que leva a vida a parecer sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa, pois um esboço é sempre o projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.
Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Poder viver apenas uma vida é como não viver nunca."
Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Poder viver apenas uma vida é como não viver nunca."
(KUNDERA, Milan. A insustentável levez do ser.)
Também conhecido como "o meu livro preferido"
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Rímel, base, blush e coragem
Me vê uma dose de coragem e uma taça de vinho, por favor. É hoje que eu culpo o álcool e mando aquela mensagem salva como rascunho há pelo menos três semanas. E se funcionar de eu conseguir a atenção dele, é hoje que eu retribuo o abraço apertado e a cheirada no pescoço que ele me deu na última vez que nos vimos.
Não passa de hoje a continuação da conversa que ele tentou começar naquela noite e juro que nem me importo em falar sobre a chuva que caiu de repente. Aliás, se der certo de eu conseguir a atenção dele, é hoje que eu uso a falta da sombrinha e o cabelo molhado a meu favor.
E se der errado, foi engano. Afinal de contas, quem aqui nunca, né, meu amigo?
Não passa de hoje a continuação da conversa que ele tentou começar naquela noite e juro que nem me importo em falar sobre a chuva que caiu de repente. Aliás, se der certo de eu conseguir a atenção dele, é hoje que eu uso a falta da sombrinha e o cabelo molhado a meu favor.
E se der errado, foi engano. Afinal de contas, quem aqui nunca, né, meu amigo?
*Título roubado da Fê Pessoa
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