No dia seguinte é que foi tenso. Levantei com o lençol enrolado no corpo - instinto de quem é tímido - e caminhei, pé por pé, em direção ao banheiro. Dei-me o direito de demorar. A água que corria pelo corpo parecia levar embora a dor de cabeça e a ressaca. Passei creme nas pernas, sequei o cabelo e me maquiei. Voltei ao quarto, vesti-me com cuidado para não fazer barulho e o acordei.
Não disse nada, mas forcei um sorriso e ele entendeu o recado - Um 'levanta da minha cama' disfarçado de 'bom dia'. Mesmo tentado a curtir uma preguiça, o fato de estar em uma cama alheia o fez levantar rápido. Escondendo-se entre as cobertas, ele achou a cueca jogada no chão e a vestiu.
Tomamos café em silêncio e caminhamos juntos para o trabalho. O silêncio é, muito provavelmente, a pior parte de tudo. Você fica tentando entender o que diabos aconteceu, lembra de uns lances constrangedores, embora bons, e sabe que ele está fazendo o mesmo. Só não sabe quais são os lances que ele está lembrando.
Chegamos. Para na porta, respira e prepara o sorriso. Entra e age como se nada tivesse acontecido e ele também. Não fosse pela sua amizade de todos os dias e pelo gelo que surgiu 'sem motivos', ninguém jamais perceberia.
Reunião na hora do almoço. Eu, o cliente e ele. Checo os emails esperando ver um 'cancelamento' nos assuntos, mas nada ali te chama a atenção, exceto um spam. Papéis arrumados, roupa alinhada, maquiagem retocada. Passa na mesa do colega, certifica-se de que está tudo bem e partem para a reunião/almoço.
Contrato fechado. Tudo iria bem, não fosse o comentário infeliz do mais novo cliente: "Nossa, vocês dois se entrosam direitinho, hein? Fiquei até sem argumentos pra negar o contrato" diz, bem-humorado. Você até fica vermelha, mas dá graças a deus que está maquiada e nem deve dar de perceber. Acompanha as risadas. Tudo friamente calculado.
No caminho de volta, seu colega comenta contigo o blush instantâneo que surgiu no seu rosto logo após o almoço. "E aí está ele de novo!", brinca. É a primeira vez do dia que você sorri sem pensar. E aí você para, pensa no assunto, sorri de novo e toca o cabelo. "Até que... não foi tão ruim assim", pensa. E disfarça o blush instantâneo que insiste em ressurgir.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Almoço de domingo
Canelas e pés inchados, algumas varises estouradas e muita dor, sorriso na boca e disposição infinita. Geni está preparando o almoço de domingo. A casa está cheia - 20 pessoas, no mínimo - mas ainda faltam mais três ou quatro. "Tudo bem, não tem problema".
No fogão de seis bocas, seis panelas diferentes. Arroz, feijão, macarrão, carne de gado na panela de pressão, polenta e carne de porco. No fogão à lenha, quirera e duas chaleiras esquentando água. Na geladeira, quase sem espaço, um bolo de amendoim "feito assim, no improviso, só porque fiquei sabendo que você vinha", diz ela.
Todo mundo ali, começa a comilança. A mesa, pequena, não tem espaço para todo mundo. Dolly, a cachorra, cheira todos os pés e encara todos os pratos. O sofá, singelo, está lotado, também. Geni não se senta. Faz um sanduíche com pão francês, beterraba e cebola e se delicia. Nunca vi ninguém gostar de alguma coisa assim, mas ela sorri. Os olhos, marcados pelas expressões, buscam atentamente todos os copos, todos pratos, para ter certeza de que tudo está em ordem.
O acúmulo dos pratos ao fim do almoço e o descaso de todas as visitas não a aborrecem. Geni separa, pacientemente, todo o resto de comida e o divide entre Dolly e os cachorros dos vizinhos. Alguém se prontifica a lavar a louça. Outra pessoa começa a secar. As chaleiras de água são esvaziadas. Duas garrafas de café e o bolinho improvisado para 25 pessoas. Todas recebem prato, garfinho e uma xícara de café enquanto as pessoas conversam e combinam o jantar.
A mesa ganha, agora, outra toalha e outro tipo de função. Geni busca o baralho, o caderno e a caneta entonando canções de igreja. A família toda joga, aposta, grita, perde dinheiro. Geni não joga. Só assiste, dá risada. Recolhe a louça, passa a pasta e a lixa no fogão à lenha. Usa bombril no fogão de seis bocas e organiza a casa toda.
16h, mais um cafezinho. 20h, Jeni liga o forno. 21h, o jantar está na mesa. A novela toda se repete: Canelas e pés inchados, algumas varises estouradas e muita dor, sorriso na boca e disposição infinita.
No fogão de seis bocas, seis panelas diferentes. Arroz, feijão, macarrão, carne de gado na panela de pressão, polenta e carne de porco. No fogão à lenha, quirera e duas chaleiras esquentando água. Na geladeira, quase sem espaço, um bolo de amendoim "feito assim, no improviso, só porque fiquei sabendo que você vinha", diz ela.
Todo mundo ali, começa a comilança. A mesa, pequena, não tem espaço para todo mundo. Dolly, a cachorra, cheira todos os pés e encara todos os pratos. O sofá, singelo, está lotado, também. Geni não se senta. Faz um sanduíche com pão francês, beterraba e cebola e se delicia. Nunca vi ninguém gostar de alguma coisa assim, mas ela sorri. Os olhos, marcados pelas expressões, buscam atentamente todos os copos, todos pratos, para ter certeza de que tudo está em ordem.
O acúmulo dos pratos ao fim do almoço e o descaso de todas as visitas não a aborrecem. Geni separa, pacientemente, todo o resto de comida e o divide entre Dolly e os cachorros dos vizinhos. Alguém se prontifica a lavar a louça. Outra pessoa começa a secar. As chaleiras de água são esvaziadas. Duas garrafas de café e o bolinho improvisado para 25 pessoas. Todas recebem prato, garfinho e uma xícara de café enquanto as pessoas conversam e combinam o jantar.
A mesa ganha, agora, outra toalha e outro tipo de função. Geni busca o baralho, o caderno e a caneta entonando canções de igreja. A família toda joga, aposta, grita, perde dinheiro. Geni não joga. Só assiste, dá risada. Recolhe a louça, passa a pasta e a lixa no fogão à lenha. Usa bombril no fogão de seis bocas e organiza a casa toda.
16h, mais um cafezinho. 20h, Jeni liga o forno. 21h, o jantar está na mesa. A novela toda se repete: Canelas e pés inchados, algumas varises estouradas e muita dor, sorriso na boca e disposição infinita.
domingo, 24 de outubro de 2010
Nenhuma Ocorrência
Domingo é geralmente um dia calmo. As 17:36, do dia 24 de outubro - um domingo - eu telefonei para a 5ª Delegacia da Polícia Capital e encontrei nenhuma resposta aos meus apelos por uma nota exclusiva. "Nenhuma ocorrência, graças a Deus", disse o bem humorado policial, Claudeonor, do outro lado da linha. Eu insisti: "Mas nada mesmo?". "Nope. Nadinha". E eu podia sentir o sorriso em sua fala.
Domingo é mesmo um dia sagrado... Nem acidentes acontencem.
Tentei então ligar para a 6ª DP, localizada no centro da cidade, em uma das mais movimentadas ruas de Floripa: Mauro Ramos. "Mas... Nada mesmo?". "É, hoje tá parado aqui"...
Na Centra da Polícia de Florianópolis a resposta foi "Ih, meu amor, hoje tá todo mundo na praia, ninguém saiu pra roubar ou cometer crime, não." disse o delegado. Mais um sorriso que eu "ouvir" e eu mesma vou sair e fazer alguma ocorrência!
Domingo é mesmo um dia sagrado... Nem acidentes acontencem.
Tentei então ligar para a 6ª DP, localizada no centro da cidade, em uma das mais movimentadas ruas de Floripa: Mauro Ramos. "Mas... Nada mesmo?". "É, hoje tá parado aqui"...
Na Centra da Polícia de Florianópolis a resposta foi "Ih, meu amor, hoje tá todo mundo na praia, ninguém saiu pra roubar ou cometer crime, não." disse o delegado. Mais um sorriso que eu "ouvir" e eu mesma vou sair e fazer alguma ocorrência!
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Sobre o início do dia
Depois de um tempo a gente se acostuma a dormir junto. O aconchego, o abraço, o cheiro da pessoa amada.
Dormir sozinha é fácil. A gente toma um bom banho e faz daquele momento uma coisa única, só nossa. Se estica na cama, respira fundo, relaxa e o sono logo vem.
A parte difícil é acordar. Abrir os olhos e não ver ao lado alguém que te deixa feliz; não receber aquele beijo disfarçando o mal-hálito da manhã, ou o abraço - instinto de quando toca o despertador. Descer as escadas sem ouvir voz nenhuma a te dizer "bom dia", tomar café da manhã sentindo saudades e escovar os dentes sem precisar disputar pelo espaço da pia.
São as coisas mais simples que nos fazem amar mais.
Dormir sozinha é fácil. A gente toma um bom banho e faz daquele momento uma coisa única, só nossa. Se estica na cama, respira fundo, relaxa e o sono logo vem.
A parte difícil é acordar. Abrir os olhos e não ver ao lado alguém que te deixa feliz; não receber aquele beijo disfarçando o mal-hálito da manhã, ou o abraço - instinto de quando toca o despertador. Descer as escadas sem ouvir voz nenhuma a te dizer "bom dia", tomar café da manhã sentindo saudades e escovar os dentes sem precisar disputar pelo espaço da pia.
São as coisas mais simples que nos fazem amar mais.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Ensaiando a liberdade
Hoje está me fazendo bem relembrar velhos amores.
Tirei férias de você, do seu jeito paternalista e dos seus cuidados. Te mandei pra longe e fiquei parada, olhando você se afastar. Não sei bem por que razão eu fiz isso, mas me pareceu tão certo que o fiz. E disse 'tchau' sem sentir culpa, tristeza ou qualquer coisa que sinto quando me despeço.
Disse a mim mesma que era porque eu sabia que veria seu rosto novamente em breve, mas sejamos francos: eu precisava de férias. Você nunca entendeu que eu acho saudável sentir saudades e que gosto de separar os nossos espaços. Nem nunca entendeu que tento te agradar de mais. Lentamente cresce em mim o medo de que você não me mude em nada, mas que eu acabe mudando por você. Antes de ti eu me conhecia, agora eu já não sei.
Não entenda mal esse nosso tempo sozinho. Eu só preciso ter certeza de que ainda existo sem você. Por isso hoje está me fazendo bem relembrar velhos amores, mas não só eles. Também me faz bem lembrar velhos rancores, traumas, feridas profundas cujos pontos arrebentam de vez em quando... São todas marcas minhas. Elas podem não ser belas, mas me fizeram quem eu sou. E eu acho natural ter que passar tempo com elas, com todas essas marcas, cicatrizes, esses defeitos meus.
De vez em quando preciso me encontrar com o resto de mim para mantê-lo intacto e talvez recuperar os pedaços do que eu era que se perderam no caminho.
Pode parece que não, mas aos meus olhos você é tão perfeito que dói. Dói ver em você o que eu queria ser, a certeza que queria ter, a autoconfiança que me falta, a determinação que admiro... Dói tanto que as vezes eu quero te evitar só para ver se te abalo nem que seja um único fio de cabelo. E então, quem sabe assim, fazendo tudo isso, eu volto a ser aquela por quem você se apaixonou, não é mesmo? Porque, querido, eu sei que eu mudei. E sei que você não está satisfeito.
Tirei férias de você, do seu jeito paternalista e dos seus cuidados. Te mandei pra longe e fiquei parada, olhando você se afastar. Não sei bem por que razão eu fiz isso, mas me pareceu tão certo que o fiz. E disse 'tchau' sem sentir culpa, tristeza ou qualquer coisa que sinto quando me despeço.
Disse a mim mesma que era porque eu sabia que veria seu rosto novamente em breve, mas sejamos francos: eu precisava de férias. Você nunca entendeu que eu acho saudável sentir saudades e que gosto de separar os nossos espaços. Nem nunca entendeu que tento te agradar de mais. Lentamente cresce em mim o medo de que você não me mude em nada, mas que eu acabe mudando por você. Antes de ti eu me conhecia, agora eu já não sei.
Não entenda mal esse nosso tempo sozinho. Eu só preciso ter certeza de que ainda existo sem você. Por isso hoje está me fazendo bem relembrar velhos amores, mas não só eles. Também me faz bem lembrar velhos rancores, traumas, feridas profundas cujos pontos arrebentam de vez em quando... São todas marcas minhas. Elas podem não ser belas, mas me fizeram quem eu sou. E eu acho natural ter que passar tempo com elas, com todas essas marcas, cicatrizes, esses defeitos meus.
De vez em quando preciso me encontrar com o resto de mim para mantê-lo intacto e talvez recuperar os pedaços do que eu era que se perderam no caminho.
Pode parece que não, mas aos meus olhos você é tão perfeito que dói. Dói ver em você o que eu queria ser, a certeza que queria ter, a autoconfiança que me falta, a determinação que admiro... Dói tanto que as vezes eu quero te evitar só para ver se te abalo nem que seja um único fio de cabelo. E então, quem sabe assim, fazendo tudo isso, eu volto a ser aquela por quem você se apaixonou, não é mesmo? Porque, querido, eu sei que eu mudei. E sei que você não está satisfeito.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Decisão
Decidi que tenho que parar de abusar das reticências, das frases muito longas, das listas de detalhes que me irritam, dos ênteres, das interrupções brutas.
Talvez se eu escrever tudo o que penso, sem apagar, o meu texto diga alguma coisa relevante.
Qualquer semelhança com as necessidades e indecisões da minha vida é mera coincidência.
Talvez se eu escrever tudo o que penso, sem apagar, o meu texto diga alguma coisa relevante.
Qualquer semelhança com as necessidades e indecisões da minha vida é mera coincidência.
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