quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A fortuna e o passo

- Se me dissessem que ali em baixo estava a maior das fortunas, a minha espera, para ser minha, se eu para ela corresse, não apressava meu passo. Não saía desse meu passinho lento, seguro, prudente - que é o único que se deve ter na vida.
- Perfeito! Não vale a pena fazer um único esforço. Correr com ânsia para coisa alguma...
- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder.
... Estou cansado, Carlinhos. Não se vê uma tipoia livre.
- Lá vai o americano. Se corrermos, ainda o apanhamos. 
-...Ainda o apanhamos. 


E correram, apressados, em direção à contradição. Porque afinal de contas, o que é a vida, se não isso?
*Trecho retirado do episódio final da série Os Maias, disponível aqui

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Função: Orientadora externa

Pulei o horário do almoço e fui direto ao terminal. Peguei o ônibus com destino à Ressacada, o estádio do Avaí, onde seria o show do Paul McCartney, sentei-me no primeiro banco vago e comecei a preparação psicológica: eu não veria o show de perto. Se tudo desse certo, ouviria do lado de fora do estádio, onde eu estaria trabalhando, organizando as filas.

O treinamento pode ser resumido à algumas frases: "essas camisetas são suas", "haverá alguém passando com água para vocês a cada meia hora ou uma hora", "não esqueçam a capa de chuva", "sorriam", "lembrem-se de dar atenção a portadores de necessidades especiais", "vocês receberão R$10,00 e 50 minutos para o lanche às 20h".

Nas doze horas que passei em pé, sorrindo, perguntando e repetindo "o portão 11 é por aqui, por favor", consegui chegar a algumas conclusões interessantes:
  1. O clichê da noite: a fila do show de um Beatle é, provavelmente, o lugar mais eclético e democrático que eu já vi. De hippies a metaleiros, todos sabem entonar ao menos uma canção em coro - e nessa hora, as diferenças deixam de importar;
  2. também é lugar para encontrar todo mundo que você já conheceu na vida: do amigo da faculdade e ex-chefes, até o seu professor de capoeira, de quando você tinha 8 anos. E ele vai te reconhecer;
  3. rostos parcialmente queimados são mais comuns do que eu imaginava;
  4. ser "orientador externo" é receber cantadas do tipo "tô precisando de uma orientação... de como chegar no motel... contigo".
  5. é aproveitar a única hora que você tem para sentar e comer para, em vez disso, ficar em pé, no meio da multidão, ouvindo e vendo o show enquanto ninguém chama a tua atenção;
  6. é ouvir do seu superior dizendo que você não está sorrindo o suficiente quando suas bochechas já estão doendo;
  7. é dar informações decoradas e repetidas, sem realmente saber pra que lado fica cada coisa, nem como funcionará o trânsito na hora da saída;
  8. é fazer amizade com os cambistas e aprender que uma capa de chuva pode ser motivo de briga;
  9. é esquecer todos os perrengues quando toca Live and let die e se emocionar com os fogos, mesmo do lado de fora do show;
  10. é ir embora a pé, na chuva e pensando "não valeu os R$100,00 que ganhei, mas já vai pagar 1/3 do meu cartão de crédito. E eu ouvi Paper back writer de perto, de graça".

domingo, 8 de julho de 2012

Ode à releitura

Quem diz que voltar para um amor antigo é como ler um livro pela segunda vez, ou nunca realmente voltou a um amor antigo, ou nunca leu um bom livro.

Eu parto da opinião de que amores antigos não existem. Eles morrem no momento em que os dois personagens principais dizem 'chega' e fazem algo que os transforma para sempre: tomam a decisão de terminar. Quando se tenta reviver um amor antigo, o único caminho é a decepção. Você mudou, ele(a) mudou. E se mudam os protagonistas, o romance não pode ser o mesmo.

... Já um livro nunca muda. Você volta a ele, como que para retornar a uma época da sua vida e funciona. Ele permanece igual, com o mesmo conteúdo e com as mesmas magias que um dia te conquistaram. E se você mudou, não tem problema: interpreta de uma nova maneira, aprende a ver o outro lado da moeda. Mas sabendo que a base continua a mesma, não há riscos a correr. Nem decepções no fim do túnel.

domingo, 24 de junho de 2012

A insustentável leveza do ser

"Não existe meio de verificar qual é decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que leva a vida a parecer sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa, pois um esboço é sempre o projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.
Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Poder viver apenas uma vida é como não viver nunca."

(KUNDERA, Milan. A insustentável levez do ser.)
Também conhecido como "o meu livro preferido"

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Rímel, base, blush e coragem

Me vê uma dose de coragem e uma taça de vinho, por favor. É hoje que eu culpo o álcool e mando aquela mensagem salva como rascunho há pelo menos três semanas. E se funcionar de eu conseguir a atenção dele, é hoje que eu retribuo o abraço apertado e a cheirada no pescoço que ele me deu na última vez que nos vimos.

Não passa de hoje a continuação da conversa que ele tentou começar naquela noite e juro que nem me importo em falar sobre a chuva que caiu de repente. Aliás, se der certo de eu conseguir a atenção dele, é hoje que eu uso a falta da sombrinha e o cabelo molhado a meu favor.

E se der errado, foi engano. Afinal de contas, quem aqui nunca, né, meu amigo?

*Título roubado da Fê Pessoa

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Daydream and sunglasses

Peguei-me sonhando acordada, novamente. Enquanto a aula passava diante dos meus olhos, em minha mente, só passava você, de camisa social e calça jeans. Perdi as contas de quantas maneiras eu imaginei te encontrar. Sonhei acordada com esbarrões na esquina do trabalho; com um encontro acidental no meu restaurante preferido; uma mão no ombro, como quem te chama só pra dar oi, na fila do cinema...

Engraçado como a mente funciona, né? Te elegi a desafio do momento, não faço nada pra te tirar esse título e continuo te olhando com olhos de desejo - assim, à distância, disfarçando com os óculos escuros. As mordidas nos lábios, o sinal mais claro que sei dar, você nem viu. Tinha as mãos firmes no volante e os olhos fixos na estrada.

Com 0% da tua atenção, memorizei teu cheiro, teu rosto, teu óculos de sol e tua barba bem aparada. E peguei-me sonhando acordada, novamente. Lá fora o pôr do sol; aqui dentro, você, de camisa social e calça jeans.


quarta-feira, 21 de março de 2012

A namorada do meu amor platônico

Céus! Por quê diabos você tá na minha timeline?!, perguntei. E just like that, eu descobri: a ex namorada do meu melhor amigo está, agora, namorando meu amor platônico de infância. Subiu uns 300 pontos no meu conceito.

Ele era aquele tipo de primeiro amor que você decide que ama porque sim. Porque ele te lembra um Backstreet Boy, porque veste roupas pretas e usa um brinquinho de argola na orelha direita, lembrando um roqueiro bad boy, mas cujo nome você nunca chegou a descobrir - meu amor por ele precedeu Orkut e Facebook.

Hoje, ele não é nada para mim. Se é que me despertou alguma coisa, foi saudade de quando eu o amava. Com toda a inocência dos meus 11 anos, eu escrevi pelo menos duas cartas que nunca entreguei; presenciei, à paisana, a primeira vez que ele beijou a primeira namorada e sequei lágrimas que insistiam em correr enquanto eu disfarçava e conversava com minhas amigas.

A vida era mais simples naquele tempo e o que eu sentia, também. A trilha sonora, é claro, era vergonhosa. Mas quem nunca achou que sofreu só pra descobrir, mais tarde, que foi tudo uma brincadeira de criança? Ao menos hoje, do alto dos meus jovens e burros 22 anos, eu vejo as coisas melhores - ou pelo menos, assim eu acho.

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