sexta-feira, 15 de abril de 2011

Ode a Bob Dylan

Bob Dylan me lembra uma das melhores partes da minha vida. Banda, casa, paicamãe, irmã e irmão, música alta nos sábados pela manhã e - sim, podem fazer piada - até a faxina vem com um certo ar de nostalgia.

Lembro do Sheike, meu cachorro vira-lata, preto com as patinhas brancas e um triângulo branco no pescoço. Sobrevivente de dois atropelamentos, Sheike tinha o rabo quebrado, torto para o lado direito e por causa disso caminhava de maneira estranha, meio de lado...

Quando eu ficava doente, Sheike sentava ao meu lado e cutucava minha mão com o seu fucinho. Quando chovia e tinha muitos relâmpagos e trovões, Sheike se escondia entre as pernas de um de nós cinco, não importava quem. Quando minha mãe calçava tênis, Sheike pulava de alegria e corria várias vezes até a esquina e voltava, esperando que saíssemos com ele para caminhar. Quando ganhava salsicha congelada - sacanagem do meu irmão - ele a jogava pro alto até descongelar e poder comer afinal. E, como qualquer cachorro, ao ouvir a palavra banho, Sheike saía em disparada.

Bob Dylan me lembra tardes de sábado, quando eu e a banda da qual eu fazia parte nos reuníamos pra ensaiar e ficávamos só vendo filmes ou conversando. Lembro das noites de pizzas rodiada, como sempre, de meninos que me chamavam de piá-sem-pinto. Nunca conseguimos aprender a tocar Like a Rolling Stone.

Bob Dylan me lembra meu irmão. A música alta que ouvíamos aos sábados pela manhã variava entre The Doors e, é claro, Dylan. Minha mãe ia a loucura. Trabalhava até o meio dia e de alguma maneira nós achávamos que estivesse tudo limpo quando ela chegasse, seria como um agradecimento.

Me lembra comida de mãe. Sopa de agnolini e vinho no sábado a noite, antes de todo mundo sair. Café com pão francês nos dias de semana, as 18h. Me lembra quarto grande e cortinas brancas, balançando com o vento.

Não sei se fiz uma ode ao Dylan ou uma ode à vida.

1 comentários:

  1. Oi camila...
    Dou uma olhada quando posso no blog.
    Bem legal, e bem escrito!
    Adorei o texto, e acredito mesmo que é um Ode a vida, um Ode a nossa infância, um Ode a morarmos em uma cidade do interior que nos permitia fazer certas coisas simples da vida, e isso ser o máximo!
    É o máximo essa sensação nostálgica e a realidade meio bucólica que viviamos na cidade, onde a poucas quadras encontrávamos grandes amigos, ou mesmo dentro de casa, em um simples café com pão às 18h.
    Beijos.

    Da uma passada no meu blog tb, to começando agora! http://cervablog.blogspot.com

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